Por que foi criado o bitcoin
O bitcoin não surgiu "do nada" e definitivamente não começou como um ativo de investimento. Ele nasceu como uma resposta engenhosa a uma dor bastante específica que a comunidade de criptógrafos, hackers e tecnólogos libertários discutiu por décadas — os cypherpunks. Sua principal tese era simples: no mundo digital, liberdade e propriedade são impossíveis sem criptografia. Se, offline, os direitos são protegidos por fronteiras físicas, cofres e leis, na internet tudo depende de quem controla os servidores, bancos de dados e canais de comunicação.
No início dos anos 2000, a internet se tornou um ambiente global para comunicação, comércio e cooperação, mas ainda não havia um meio universal de troca em que todos os participantes da Rede pudessem confiar. Dados digitais podem ser copiados infinitamente, portanto, qualquer "dinheiro na internet" exigia um centro de confiança — um banco, serviço de pagamento ou governo que registrasse e confirmasse transações. Isso tornava esse tipo de dinheiro vulnerável à censura, bloqueios e regras arbitrárias. A internet era global e descentralizada, mas o dinheiro nela não era.
$BTC tentou resolver precisamente esse problema: criar dinheiro para a internet que não depende da confiança em uma instituição específica. Em vez de um intermediário central, a confiança foi transferida para um protocolo aberto, um registro público e os incentivos econômicos dos participantes da Rede. Qualquer um poderia verificar as regras, o histórico de transações e a autenticidade das moedas por conta própria. Assim, surgiu pela primeira vez um meio universal de troca para o ambiente digital, onde a confiança é assegurada não pela autoridade, mas pela matemática e pelo consenso da Rede.
Quem e por que precisou do ouro
A história do ouro como dinheiro começa muito antes do surgimento dos mercados na compreensão moderna. Aproximadamente 7-8 mil anos atrás, a humanidade entrou em uma fase de desenvolvimento fundamentalmente nova: a economia tribal, baseada em laços pessoais, presentes e obrigações mútuas, deixou de funcionar em escalas urbanas, a divisão do trabalho se complicou, e o volume de trocas entre pessoas que não se conhecem cresceu. Surge o mesmo problema fundamental que mais tarde na internet: como trocar valor entre pessoas que não confiam diretamente umas nas outras.
O ouro se mostrou um candidato quase perfeito para o papel de dinheiro universal. Ele é raro na natureza, e sua extração requer esforços e tempo significativos, o que torna sua oferta limitada e previsível. O ouro é facilmente divisível, conveniente para armazenamento e transporte, não se deteriora com o tempo e praticamente não é destruído durante o uso. Ao contrário da maioria dos produtos, ele não pode ser "consumido" — o trabalho investido em sua extração é mantido em forma física. Tudo isso tornou o ouro uma ferramenta natural não apenas de troca, mas também de preservação de valor a longo prazo.
É importante que o ouro não se tornou dinheiro por ordem de alguém ou decisão de um centro. Seu papel foi formado naturalmente — através de repetidas experiências de troca. As pessoas não precisavam se conhecer pessoalmente ou confiar em uma pessoa específica: era suficiente entender que o valor do ouro é reconhecido por todos. Com o ouro, era possível ir a outra cidade ou país e trocá-lo por bens e serviços. Assim, gradualmente se formou um consenso social: o ouro se tornou um portador universal de valor, operando fora de laços pessoais, diferenças culturais e fronteiras.
O que mudou: por que ouro e bitcoin não se tornaram dinheiro no pleno sentido da palavra
Para entender por que tanto o ouro quanto o bitcoin hoje não são dinheiro no sentido clássico, é necessário primeiro lembrar o que se entende por dinheiro. Na teoria econômica, geralmente são destacadas quatro funções principais do dinheiro:
meio de troca — dinheiro é usado para comprar bens e serviços;
medida de valor — em dinheiro, são expressos preços e cálculos econômicos;
meio de pagamento — dinheiro é aplicado para liquidação de dívidas, impostos, obrigações;
meio de acumulação (poupança) — o dinheiro permite transferir valor ao longo do tempo.
Ao longo de milênios, o papel do ouro mudou gradualmente. Primeiro, foi um metal raro, depois joias, que ao mesmo tempo serviram como uma forma de preservar riqueza. Mais tarde, o ouro começou a ser usado como moeda para comércio e pagamento, e com o tempo — na forma de barras, principalmente para armazenamento. Gradualmente, o ouro se concentrou em cofres bancários e reservas estatais, cedendo lugar a dinheiro papel e eletrônico na economia cotidiana. Como resultado, o ouro perdeu a maioria de suas funções monetárias e manteve principalmente o papel de meio de acumulação.
O bitcoin foi concebido inicialmente como dinheiro para a internet, mas na prática hoje quase não é utilizado para realizar pagamentos. Ele é principalmente usado como uma ferramenta de investimento, meio de acumulação de valor ao longo do tempo e como uma forma de transferi-lo através de fronteiras sem intermediários.
Por que bitcoin e ouro são escolhidos como instrumentos de acumulação
A resposta não está na ideologia ou na moda, mas nas leis econômicas básicas que funcionam igualmente para o mundo físico e digital.
Em primeiro lugar, neste contexto, é apropriado lembrar a equação de troca do economista da escola monetária Irving Fisher MV = PQ, que descreve a relação entre a massa monetária, a velocidade de circulação do dinheiro, o volume de bens e o nível de preços. Tanto no caso do ouro quanto no do bitcoin, a oferta é limitada. As reservas de ouro crescem lentamente e de forma previsível, enquanto a emissão de bitcoin é rigidamente definida pelo protocolo. Se, ao mesmo tempo, o volume de bens e serviços na economia aumenta com o tempo, mas a velocidade de circulação desses ativos permanece baixa, então os preços, expressos em ouro ou bitcoin, diminuem. Isso significa um aumento de seu poder de compra em relação às moedas fiduciárias, tornando-as ferramentas convenientes para a preservação de valor ao longo do tempo.
Em segundo lugar, aqui opera a lógica conhecida como a lei de Copérnico-Gresham, frequentemente formulada como "moedas ruins expulsam moedas boas". Quando diferentes formas de dinheiro existem simultaneamente na economia, as pessoas tendem a gastar aquelas que consideram de menor qualidade e acumular aquelas que são vistas como mais confiáveis. Dinheiro fiduciário depende das decisões dos governos e bancos centrais, pode ser emitido sem controle, está sujeito à inflação, crises financeiras e restrições políticas. Como resultado, as moedas fiduciárias são vistas como um meio conveniente de pagamento, mas não como uma ferramenta confiável de poupança. É por isso que as pessoas tendem a gastar, enquanto o ouro e o bitcoin preferem ser mantidos e acumulados.
Em terceiro lugar, é apropriado abordar a teoria do valor-trabalho, formulada pelo economista clássico David Ricardo. Dentro dessa teoria, o valor de um produto é determinado pela quantidade de trabalho e recursos gastos em sua produção. Na maioria dos casos, o produto é produzido, comprado e então consumido, resultando na perda do trabalho investido. No entanto, se o produto não é destruído no processo de consumo após sua criação, o valor investido nele se acumula e é preservado. No caso do ouro, isso se refere ao trabalho humano e recursos gastos na extração, refino e infraestrutura. No caso do bitcoin — a energia gasta em cálculos necessários para sua emissão e manutenção da segurança da Rede. Tanto o ouro quanto o bitcoin não são consumidos, mas continuam a existir, preservando os recursos gastos.
Este modelo funciona enquanto houver um consenso estável na sociedade: o ouro e o bitcoin podem ser comprados e vendidos a qualquer momento — existe um mercado global para eles que abrange todo o planeta. O ouro — na forma de barras, moedas e joias — é possuído por 1,1–1,6 bilhões de pessoas, até 20% da população da Terra. Usuários de bitcoin são 100–500 milhões de pessoas, o que representa até 10% da audiência da internet.
A humanidade, como civilização comercial urbana, usou o ouro como portador de valor por cerca de 75% de toda sua história. O bitcoin é incomparável ao ouro em profundidade histórica, mas aqui o contexto da economia digital é importante. Se considerarmos a história da internet a partir de 1991 — o momento do surgimento do primeiro site — o bitcoin existe desde 2009, ou seja, mais da metade do tempo da existência da internet como um meio de massa. Durante esse tempo, ele não desapareceu, não foi substituído por alternativas e conseguiu se integrar na economia da internet como um ativo global para poupança e transferência de valor transfronteiriça.
A estabilidade do consenso em torno do ouro e do bitcoin não significa sua proteção absoluta. No caso do ouro, o principal risco está relacionado à sua raridade. De acordo com várias estimativas, já foram extraídas 216 mil toneladas de ouro, o que representa 77% de todas as reservas economicamente extraíveis na Terra. Para comparação, cerca de 95% do ouro foi extraído após 1900, graças a novas tecnologias. Na crosta terrestre, existem mais de 100 milhões de toneladas de ouro que são consideradas economicamente não extraíveis, e no asteroide Psyche pode haver até 23 bilhões de toneladas, e, possivelmente, as tecnologias do futuro permitirão extrair esse ouro, o que derrubará seu valor como metal raro.
Os riscos para o bitcoin também se situam na dimensão tecnológica. O desenvolvimento da computação quântica, em teoria, pode quebrar a criptografia usada hoje, e a questão da adaptação da Rede aos padrões pós-quânticos permanece sem solução. Além disso, o valor do bitcoin — sua emissão limitada — tem um lado negativo: à medida que diminui, o sistema dependerá cada vez mais das taxas de transação como fonte de receita para os mineradores. Se esses incentivos são suficientes para manter a segurança da Rede a longo prazo — é uma questão importante para toda a estrutura.
Apesar das diferenças na forma, idade e natureza tecnológica, o ouro e o bitcoin chegaram a um papel surpreendentemente semelhante na economia. Ambos os instrumentos começaram como uma resposta à necessidade de dinheiro, mas com o tempo perderam a maioria de suas funções monetárias, mantendo a função chave — meio de acumulação. Ambos existem e preservam valor não por ordem ou lei, mas graças a um consenso social estável, apoiado por um vasto mercado global. Ambos permitem transferir valor ao longo do tempo e espaço, reduzindo a dependência de estados específicos, instituições e decisões individuais.
O ouro é milhares de anos de história do trabalho humano, fundido em metal.
O bitcoin é a história da energia queimada, registrada no blockchain.
O que isso significa para o investidor privado
Nas escolas de investimento clássicas, o ouro é visto como um elemento estratégico de diversificação. Por exemplo, o conceito de "carteira eterna" sugere alocar até 25% do capital em ouro, enquanto outras abordagens equilibradas sugerem 7-10%, e modelos mais conservadores — 2-5% como uma proteção. A lógica geral de todas essas abordagens é semelhante: o ouro não deve proporcionar crescimento da carteira, sua função é reduzir riscos sistêmicos e manter o poder de compra em períodos de instabilidade.
Lógica semelhante está sendo gradualmente aplicada ao bitcoin. Grandes casas de investimento e bancos — como BlackRock, Fidelity, JPMorgan e Morgan Stanley — o veem não como uma substituição de ativos tradicionais, mas como um complemento a um portfólio diversificado. Ao discutir o lugar do bitcoin no portfólio, recomendam formar sua participação na faixa de 1-5%, dependendo do perfil de risco do investidor. Dentro desses limites, o bitcoin é visto como um ativo assimétrico: de um lado, é uma aposta na expansão de sua aceitação como padrão de poupança entre um número crescente de pessoas e instituições; do outro, uma forma de proteção contra a instabilidade das moedas fiduciárias, inflação e crises bancárias.
Nesse sentido, a narrativa de que o bitcoin é ouro digital parece bastante válida. Diferentes épocas, diferentes tecnologias e diferentes formas — mas a mesma ideia: preservar valor em um mundo onde a confiança é sempre limitada e a incerteza é constante.
